segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Não me chocam...

... cartazes que por aí andam e que tanta polémica têm causado... mas chocam-me muitas outras coisas,  tais como,  ver o sofrimento prolongado, de quem a vida já nada tem para lhes dar e a quem , em nome de não sei bem de quê, lhes é retirado o direito de acabar com o sofrimento com dignidade.

Sou a favor da despenalização da eutanásia e gostaria, se vier a precisar, que ela me seja aplicada e sem penalizações!

Deixo aqui o testemunho de quem a praticou à margem da lei, mas consciente do dever cumprido que vale a pena ler.

Artigo retirado daqui  partilhado na integra.

"Sim, matei quatro pessoas e defendo a eutanásia

Não a ajudei a morrer, matei-a. É essa a palavra. Não me despedi com dois beijos, nem lhe passei a mão pela cabeça, não queria que se tornasse mais emocional do que já era. Nem eu, nem ela. Foi de uma frieza extraordinária… e de uma coragem. "Então, vamos a isto", disse-me. Bebeu uma última cervejinha, fumou o último charro e deitou-se como se fosse dormir e acordar no dia seguinte. 

Antes de começar, perguntei-lhe uma última vez se tinha a certeza e pedi-lhe para ser ela a abrir o soro. O medicamento é dado por via endovenosa, de maneira que é preciso apanhar uma veia. Primeiro, pus o soro para manter a veia e logo a seguir dei-lhe uma injecção com um hipnótico usado para anestesias rápidas. Estava sentado na cama, do lado esquerdo dela. Levantei-me para olhar para o electrocardiógrafo. Pedi-lhe para contar até 10 ao contrário. "10, 9, 8, 7…", adormeceu. Abanei-a, não acordou. 

Não a ajudei a morrer, matei-a. É essa a palavra. Não me despedi com dois beijos, nem lhe passei a mão pela cabeça, não queria que se tornasse mais emocional do que já era. Nem eu, nem ela. Foi de uma frieza extraordinária… e de uma coragem. "Então, vamos a isto", disse-me. Bebeu uma última cervejinha, fumou o último charro e deitou-se como se fosse dormir e acordar no dia seguinte. 

Antes de começar, perguntei-lhe uma última vez se tinha a certeza e pedi-lhe para ser ela a abrir o soro. O medicamento é dado por via endovenosa, de maneira que é preciso apanhar uma veia. Primeiro, pus o soro para manter a veia e logo a seguir dei-lhe uma injecção com um hipnótico usado para anestesias rápidas. Estava sentado na cama, do lado esquerdo dela. Levantei-me para olhar para o electrocardiógrafo. Pedi-lhe para contar até 10 ao contrário. "10, 9, 8, 7…", adormeceu. Abanei-a, não acordou.
Avancei com a substância que a mataria. Um minuto depois, comecei a ver alterações no electrocardiograma e, por fim, uma linha recta. São alguns minutos até o coração parar, talvez uns cinco. Quando o tronco cerebral é atingido pela falta de circulação há uma reacção reflexa, que não é sentida pela pessoa, e o corpo fica em posição fetal. Na mesma altura, também faz um barulho como se se estivesse a contrair. 

Uma amiga, que também estava presente, pôs-lhe o braço por trás e aconchegou-a. É uma questão de segundos, depois o corpo relaxa. A seguir, chorei. É uma descarga brutal, irreprimível. Tem um lado recompensador, por a ter ajudado e evitado que viesse a ter um sofrimento tramado, mas também é violento saber que estou a matar uma pessoa. Sobretudo uma amiga. Não é fácil, é muito difícil. 

Não dormi nessa noite e durante mais de dois meses tive sonhos com a imagem da morte dela. Falei muitas vezes com a amiga, questionámos o momento, a rectidão dos nossos actos… Mas nunca me arrependi. Evitei o sofrimento certo de uma pessoa de quem eu gostava e que me pediu para a ajudar. Era inexorável. Senti que era meu dever, principalmente por ser amigo dela, mas não só. Não podia ser cobarde a vida toda, caramba. 

Se defendo que a morte assistida deve ser despenalizada em Portugal, como médico não tenho o direito de dizer ao doente: "Olha desenrasca-te." Devo auxiliá-lo, sobretudo neste momento. A Marta tinha 52 anos e era uma amiga de infância. As nossas famílias passavam férias em conjunto, numa altura em que a viagem ainda era feita de carroça e demorava um dia inteiro. Um dia apareceu-me no consultório com uma radiografia, olhei e percebi logo que era uma neoplasia. Fez uns exames e confirmou-se: cancro do pulmão. 

Os tratamentos de quimioterapia e radioterapia não resultaram e começaram a aparecer-lhe metástases no cérebro. A certa altura começou com perturbações de equilíbrio. "Estou a sofrer, quero morrer, ajudas-me?", perguntou-me um dia, no consultório. Fiquei apreensivo mas acabei por aceder. Ela tinha razões para querer morrer: as expectativas de vida de um cancro daqueles eram de um ano; já tinham passado seis meses. Depois do desequilíbrio começaria com dores de cabeça intensas, ficaria cega e deixaria de ouvir, poderia entrar em coma profundo e ficar numa existência vegetativa. A perspectiva era morrer dali a três ou quatro meses, com muito sofrimento. 

Repor a vida a uma pessoa 
Combinámos que seria em casa dela e que teria de arranjar alguém de confiança para assistir: precisava de uma pessoa que me ajudasse, se fosse preciso, e também de acompanhamento moral. Durante os 15 dias entre o pedido e a morte perguntei-lhe várias vezes se não queria voltar atrás. Não mudou de ideias. Aconteceu num dia à noite, por volta das 23h. É mais sossegado para entrar e sair de casa sem ser visto. Precisava de levar uma série de equipamentos, entre eles um electrocardiógrafo, o estetoscópio, o aparelho para medir a tensão e a medicação (soro fisiológico, um indutor do sono e uma substância de uso hospitalar, que usada em grandes quantidades, provoca uma paragem do tronco cerebral por falta de irrigação sanguínea). 

Estava nervoso, mas a mão não me tremeu como aconteceria mais tarde. Fui eu que atestei o óbito, umas horas depois. Combinámos previamente o que diríamos à família: que ela tinha começado com umas dores de cabeça, me tinha ligado para ir vê-la, e que quando cheguei já tinha morrido. A polícia só seria chamada se a família ligasse ao INEM, caso contrário era só contactar a agência funerária. Já passaram 15, talvez 20 anos. 

A experiência mudou-me: percebi que era capaz de o fazer e isso fez- -me sentir mais capacitado. Na altura, já tinha recebido pedidos de outras pessoas, que não me foi possível ajudar, mesmo quando tinha a convicção de que o pedido era razoável. Fiquei sempre com a impressão de que não fiz tudo por elas. A primeira vez que pensei em eutanásia foi há mais de 30 anos, na sequência da morte do meu pai. Teve uma aterosclerose cerebral [um estreitamento das artérias que pode reduzir significativamente o fornecimento de sangue a órgãos vitais como o coração e o cérebro] e esteve acamado quase dois anos. A piorar, a degradar-se, a ter alucinações e discursos incoerentes. Só dizia disparates: "Ó filho, o que estás aí a fazer na Suécia?" Nos momentos de lucidez pedia-me um cigarro, eu punha-lho na boca e ele dava um bafo. Todos os dias, quando ia vê-lo, pensava: "Porque é que ainda está vivo?" Já não existia, já não tinha cabeça. Não tive coragem para fazer nada… hoje teria. Sim, hoje teria. Isso passou-me pela cabeça muitas vezes. O meu pai era um médico brilhante. Era reconhecido e conhecido porque era bom. Eu fui interno dele, na fase de policlínica em que passamos por vários serviços. Acompanhar as visitas dele aos doentes era um hino à Medicina: sentava-se em todas as camas e estava ali o tempo que fosse necessário para esclarecer todas as dúvidas, com uma qualidade ímpar. Não sei dizer se foi ele que me influenciou porque só comecei a pensar em Medicina já no liceu. Primeiro, quis ser polícia sinaleiro, depois pintor, a seguir arquitecto e por último engenheiro electrónico. Foi quando passei para o antigo 5º ano [agora 9º ano], e tive de escolher uma área, que optei pela alínea f, que dava acesso à Medicina. Tinha gostado muito das Ciências Naturais, de cortar bichinhos e ver como eram por dentro, fiquei conquistado. 

Em 1974, depois de ir à tropa, já tinha feito o primeiro ano de internato geral, comecei a trabalhar numa clínica privada. Ali é que a chama se acendeu. Lembro-me de um caso determinante: um homem, de 40 anos, que entrou esquelético, com uma anemia gravíssima, cheio de escaras e comatoso. Começámos a tratá-lo, ao fim de uma semana melhorou, ao fim de um mês sarou. É o que se chama repor a vida a uma pessoa, não é? Isso mexe muito, intervir para prolongar a vida e consegui-lo de forma artificial. Os sete anos que estive nessa clínica foram decisivos. Fui aliciado por essa sensação de restabelecer a vida. É uma coisa espectacular porque envolve um sentimento de autocapacidade e algum poder. Há qualquer coisa de transcendente, que não consigo bem definir. Diria que a sensação mais parecida é talvez um orgasmo. É bom, muito bom. 

A seguir especializei-me e fiz todo o percurso no público até chegar a um cargo de direcção. Trabalhei no mesmo sítio durante 34 anos. Era completamente viciado no trabalho, dava-me muito gozo. Nem pensava em horas extraordinárias, fazia consulta até às 18h quando na altura nem havia essa obrigatoriedade. Mal dava conta da minha vida pessoal mas, apesar disso, acho que fui um pai cuidadoso, que segui de perto os meus três filhos embora não tenha tido um convívio permanente com eles. Isso nunca me apoquentou. Antes de tudo, era médico, tinha as minhas responsabilidades profissionais. O poder de decidir o que nos acontece 
Neste aspecto, era parecido com o meu pai: uma pessoa cuidadosa, com uma visão holística dos doentes. Não fazia consultas de 10 minutos, tipo caixa de previdência. A certa altura implementaram aos médicos as consultas de 15 minutos, 30 para uma primeira consulta. Recusei-me logo a fazê-lo. Para ver um doente pela primeira vez demoro uma hora; numa segunda consulta, o mínimo dos mínimos são 30 minutos. Na minha perspectiva é preciso dar lugar ao doente para se expandir, mesmo que não seja para falar da doença. Quando vou ao médico, é importante a forma como sou abordado, a abertura que aquele profissional me dá, o olhar, o interesse que tem por aquilo que estou a explicar. São aspectos essenciais, além da ciência. 

Não acredito em Deus, sou completamente ateu. Creio que quando morremos, acaba tudo, somos matéria tal como os cães, os gatos, os cavalos e tudo o que é vivo. Mas a minha família, à excepção do meu pai, era extremamente católica. Por isso, andei numa escola religiosa. Todas as manhãs, antes de irmos para as aulas, cantávamos a Nossa Senhora. À hora de sair, reuníamo-nos novamente e era a mesma cantiga. Aquilo obviamente entrava na cabeça das crianças. Por volta dos 14 anos, deu-se-me a volta. Comecei a ler sobre a teoria do Big Bang, [Jean-Paul] Sartre e o manual de Filosofia do liceu. A argumentação do meu professor de Religião e Moral também me parecia completamente idiota. Foi um escândalo quando deixei de ir à missa. A minha convicção é que temos o poder de decidir aquilo que nos acontece, desde que não interfira com a liberdade ou com os direitos dos outros. Daí a posição sobre a morte assistida: de quem é a minha vida? Se eu não acredito em Deus, porque é que ele ou o Estado hão-de mandar em mim? 

A morte também nunca me inquietou. Estava no sexto ano do liceu quando assisti à morte da minha avó materna. Ela já estava muito velhinha, acamou, esteve assim dois ou três dias e depois morreu. Lembro-me perfeitamente de ter visto os olhos dela revirarem. Marcou-me porque nunca tinha visto. O meu pai, a minha mãe e os meus avós morreram todos em casa. Será que as pessoas têm medo da morte ou medo de morrer? Penso que algumas, tal como eu, apenas de morrer. Há mortes horrorosas... Ao fim de alguns anos a trabalhar na especialidade, a ver doentes sujeitos a mortes desnecessariamente sofridas, pus-me a pensar no sentido da vida. 

Estávamos no fim dos anos 70, início dos 80. Na Holanda e na Bélgica [onde a eutanásia e o suicídio assistido estão despenalizados desde 2002], ainda a discussão sobre a morte assistida estava no plano teórico. Em Portugal só se falava do assunto em meios muito restritos. Eu sempre tive uma veia de revolucionário, é uma questão de consciência: acho que a morte assistida é um direito que nos assiste. Considero também que é uma cobardia fugir à eutanásia e obrigar as pessoas a recorrerem ao suicídio. 

Conceptualmente, percebo que a pessoa prefira que alguém a mate sem sofrimento do que ser ela própria a fazê-lo. Por isso, acho que a eutanásia devia fazer parte dos deveres do médico, obviamente só para casos em que seja justificado, e salvaguardando o direito à objecção de consciência. Dirão os detractores que isso vai contra o juramento de Hipócrates, mas o mesmo código também diz que se deve aliviar o sofrimento do doente. Ora se uma pessoa me diz que já não pode mais, e que a única maneira de lhe aliviar o sofrimento é morrer, eu como médico é que decido? 

Abreviar o sofrimento de um amigo 
Há cerca de 10 anos, pratiquei novamente a eutanásia a um dos meus melhores amigos, daqueles que são manos, carne com carne. O Miguel também era médico, amigo do liceu, um gajo bonito e inteligentíssimo que gostava de ter a casa cheia de convidados. Estava numa situação desesperada: farto de viver com dores, sem uma perna, praticamente todo paralisado, com internamentos sucessivos com infecções respiratórias. Precisava de ajuda para tudo: para se deitar, levantar, ir à casa de banho, comer. Custava-me vê-lo assim, bolas, se custava… Aos 40 anos foi-lhe diagnosticada esclerose múltipla. Desde o aparecimento dos sintomas até à sua morte passaram uns 18 anos Na fase final, a degradação física foi-se tornando mais rápida. Não me pediu logo a mim para o matar, andou à procura entre outros amigos médicos, mas ninguém quis ajudá-lo. "Tens de ser tu", disse-me a certa altura. Já estava à espera, mas gostava que não tivesse sido assim. Antes de ficar doente, já era um defensor da despenalização da morte assistida. E mesmo na pior fase da sua vida reiterava o seu pedido de forma muito consciente. Era o único que sabia o que verdadeiramente tinha acontecido com a Marta. Num domingo à noite, o único dia em que o seu empregado não estava, fui ter a casa dele acompanhado por outro amigo em comum, que o Miguel fez questão que estivesse presente. A sua mulher também assistiu. Nestas alturas, curiosamente, uma pessoa tem uma presença de espírito que lhe dá para fazer as coisas mais disparatadas. Antes de o picar, disse-lhe: "Queres que desinfecte?" Como se isso fosse importante naquela situação. 

Porém, quando chegou a hora, não consegui apanhar-lhe a veia. A mão tremia-me tanto… não tinha acontecido da primeira vez. Mas esta amizade era mais forte. Fiz várias tentativas e nada. Senti-me terrível. Pedi-lhe desculpa pelo falhanço e acabámos por combinar outro dia, duas ou três semanas mais tarde, para tentar novamente. Confesso que nesse intervalo pensei muitas vezes em desistir… Mas não o fiz. Da segunda vez pensámos numa alternativa: se não conseguisse picar-lhe a veia, ele tomaria duas caixas de um medicamento para o coração, extremamente tóxico quando tomado em grandes doses. Seria uma tentativa de suicídio, e não de eutanásia. Correu tudo mal: nem eu consegui, nem a dose de comprimidos, supostamente mortal, fez efeito. 

O Miguel adormeceu mas, ao fim de 30 minutos, o electrocardiograma ainda não revelava qualquer anomalia. Em vez de o coração parar, ele acordou. Sentia-se tão mal que o tivemos de levar para o hospital. Em casa só poderia sofrer mais. Disse aos médicos que o assistiram que ele tinha tomado uma série de comprimidos, não sabia quantos, e que lhe tinha dado cloreto de potássio – uma forma de combater o efeito tóxico do outro medicamento. Salvei-lhe a vida, ao contrário do que era suposto. No hospital fizeram-lhe uma lavagem ao estômago e ficou internado. Por estar tão frágil fisicamente, acabou por desenvolver uma pneumonia grave e ficou hospitalizado mais de três meses. 

O tempo de internamento só veio reforçar as suas convicções. Viver fazia-lhe cada vez menos sentido e não conseguiria dar termo à vida sozinho. Quando teve alta, pediu-me novamente para o ajudar a morrer. Nesse domingo, lembro-me que foi no dia do almoço de Natal das clínicas onde trabalhava, assegurámo-nos de que correria tudo bem: conseguimos que um colega de confiança lhe picasse a veia e metesse uma cânula. Eu fiz o resto. Antes de começar, conversámos sobre futebol, dissemos algumas piadas do género "vemo-nos numa próxima!" e, por fim, disse-lhe que iria sentir muito a falta dele. Diria que, por um lado, foi mais violento aquele processo de tentativas e falhanços mas, por outro, quando acabou, foi um alívio. Finalmente tinha sido como ele queria. Na fase final, a degradação física foi-se tornando mais rápida. Não me pediu logo a mim para o matar, andou à procura entre outros amigos médicos, mas ninguém quis ajudá-lo. "Tens de ser tu", disse-me a certa altura. Já estava à espera, mas gostava que não tivesse sido assim. Antes de ficar doente, já era um defensor da despenalização da morte assistida. E mesmo na pior fase da sua vida reiterava o seu pedido de forma muito consciente. Era o único que sabia o que verdadeiramente tinha acontecido com a Marta. Num domingo à noite, o único dia em que o seu empregado não estava, fui ter a casa dele acompanhado por outro amigo em comum, que o Miguel fez questão que estivesse presente. A sua mulher também assistiu. Nestas alturas, curiosamente, uma pessoa tem uma presença de espírito que lhe dá para fazer as coisas mais disparatadas. Antes de o picar, disse-lhe: "Queres que desinfecte?" Como se isso fosse importante naquela situação. 

Porém, quando chegou a hora, não consegui apanhar-lhe a veia. A mão tremia-me tanto… não tinha acontecido da primeira vez. Mas esta amizade era mais forte. Fiz várias tentativas e nada. Senti-me terrível. Pedi-lhe desculpa pelo falhanço e acabámos por combinar outro dia, duas ou três semanas mais tarde, para tentar novamente. Confesso que nesse intervalo pensei muitas vezes em desistir… Mas não o fiz. Da segunda vez pensámos numa alternativa: se não conseguisse picar-lhe a veia, ele tomaria duas caixas de um medicamento para o coração, extremamente tóxico quando tomado em grandes doses. Seria uma tentativa de suicídio, e não de eutanásia. Correu tudo mal: nem eu consegui, nem a dose de comprimidos, supostamente mortal, fez efeito. 

O Miguel adormeceu mas, ao fim de 30 minutos, o electrocardiograma ainda não revelava qualquer anomalia. Em vez de o coração parar, ele acordou. Sentia-se tão mal que o tivemos de levar para o hospital. Em casa só poderia sofrer mais. Disse aos médicos que o assistiram que ele tinha tomado uma série de comprimidos, não sabia quantos, e que lhe tinha dado cloreto de potássio – uma forma de combater o efeito tóxico do outro medicamento. Salvei-lhe a vida, ao contrário do que era suposto. No hospital fizeram-lhe uma lavagem ao estômago e ficou internado. Por estar tão frágil fisicamente, acabou por desenvolver uma pneumonia grave e ficou hospitalizado mais de três meses. 

O tempo de internamento só veio reforçar as suas convicções. Viver fazia-lhe cada vez menos sentido e não conseguiria dar termo à vida sozinho. Quando teve alta, pediu-me novamente para o ajudar a morrer. Nesse domingo, lembro-me que foi no dia do almoço de Natal das clínicas onde trabalhava, assegurámo-nos de que correria tudo bem: conseguimos que um colega de confiança lhe picasse a veia e metesse uma cânula. Eu fiz o resto. Antes de começar, conversámos sobre futebol, dissemos algumas piadas do género "vemo-nos numa próxima!" e, por fim, disse-lhe que iria sentir muito a falta dele. Diria que, por um lado, foi mais violento aquele processo de tentativas e falhanços mas, por outro, quando acabou, foi um alívio. Finalmente tinha sido como ele queria. Como é para um médico ter cancro? É tão difícil para nós como para outra pessoa. Embora nós andemos mais à frente, sabemos o que vai acontecer, não acalentamos falsas esperanças. Pedi o prognóstico: "25% ao fim de cinco anos", disse-me o oncologista. "De morte?" Perguntei. "Não, de vida." Já passaram sete anos. Pelos vistos, faço parte desses 25%. Fiz quimioterapia durante três meses, de três em três semanas, e depois radioterapia. Mas continuei sempre a trabalhar. O dia a seguir à quimioterapia era o pior, não conseguia fazer nada por causa das dores. Também me caiu o cabelo e as pestanas, mas até achei que me ficava bem. A radioterapia foi mais difícil: todos os dias, às 8h da manhã, durante 10 minutos. Lixou-me por completo os pulmões. Eu já tinha bronquite crónica, fumo desde os 15 anos. Comecei por 10 cigarros, hoje fumo um maço e meio. Nunca parei, nem mesmo durante os tratamentos, embora tenha feito algumas tentativas honestas… mas não consegui. Como é para um médico ter cancro? É tão difícil para nós como para outra pessoa. Embora nós andemos mais à frente, sabemos o que vai acontecer, não acalentamos falsas esperanças. Pedi o prognóstico: "25% ao fim de cinco anos", disse-me o oncologista. "De morte?" Perguntei. "Não, de vida." Já passaram sete anos. Pelos vistos, faço parte desses 25%. Fiz quimioterapia durante três meses, de três em três semanas, e depois radioterapia. Mas continuei sempre a trabalhar. O dia a seguir à quimioterapia era o pior, não conseguia fazer nada por causa das dores. Também me caiu o cabelo e as pestanas, mas até achei que me ficava bem. A radioterapia foi mais difícil: todos os dias, às 8h da manhã, durante 10 minutos. Lixou-me por completo os pulmões. Eu já tinha bronquite crónica, fumo desde os 15 anos. Comecei por 10 cigarros, hoje fumo um maço e meio. Nunca parei, nem mesmo durante os tratamentos, embora tenha feito algumas tentativas honestas… mas não consegui. Não faço a mínima ideia se o tumor ainda aqui está, nem me adianta saber. A insuficiência respiratória já chega para diminuir a minha expectativa de vida, não preciso do cancro. Uma das coisas que mais me custa é tomar banho, preciso de ajuda sobretudo para limpar os pés e as pernas, e tenho de ficar apoiado no lavatório uns 15 minutos até recuperar o fôlego. Confesso que já nem tomo banho todos os dias, sinto-me incapaz. Depois, a cabeça também já não funciona da mesma maneira, talvez pela falta de oxigénio, faltam-me os termos quando escrevo. Não acredito que sobreviva mais do que um ano. O meu corpo não vai aguentar e eu não sei se aguento o sacrifício de viver. 

Todas as manhãs faço oxigénio e às vezes também ao longo do dia. Pontualmente, tomo um comprimido de cortisona para a falta de ar. A noção de morte a breve prazo não me assusta, nem perco tempo a pensar nisso. Para quê? Depois do Miguel antecipei a morte a mais duas pessoas. A terceira foi uma tia, irmã do meu pai, que morreu com 95 anos. A tia era a pessoa querida da família, se fosse católico diria que era uma santa pessoa, embora fosse malandra e gostasse de coscuvilhices. Ia tendo as suas coisinhas, mas era saudável O sítio onde se deve morrer 
Sempre me expressou a vontade dela: se precisasse, não queria prolongar sofrimentos. Na fase final, teve uma série de problemas seguidos. Nem tive oportunidade de me despedir. Primeiro, foi uma pneumonia forte, depois fez um enfarte do miocárdio e a seguir uma trombose cerebral. Ficou paralisada de um lado e comatosa. O seu estado era irreversível e, com o consenso de toda a família, dei-lhe uma ajudinha com morfina. Diria que, neste caso, o termo antecipar a morte se aplicou mesmo. Morreu em casa, nunca quis ir para o hospital, e penso que é o sítio onde todas as pessoas deveriam morrer… 

A quarta pessoa foi um doente, talvez aquele que vi sofrer mais e tão prolongadamente. Tinha 50 anos e era diabético desde a adolescência. Por causa da doença amputaram-lhe as duas pernas, ao nível da raiz da coxa, perdeu também dois ou três dedos de uma mão e quatro da outra. Era totalmente dependente para os gestos mais elementares, como alimentar-se, vestir-se, lavar-se, satisfazer as necessidades básicas e administrar a insulina, e tinha escaras profundas, sempre infectadas. A diabetes era de tão difícil controlo, que fazia episódios de coma. 

Era difícil ultrapassar a violência daquele estado. Já o seguia há uns meses quando me expressou a vontade de morrer. Poderia fazê-lo sozinho, se suspendesse todos os tratamentos, mas envolveria um sofrimento atroz: mais episódios de coma, náuseas e vómitos, fortes dores de cabeça, contracções musculares, profundo mal-estar generalizado, hemorragias, falta de ar. Morreria, no máximo, em três semanas. Por isso, no mesmo dia em que assinou a alta, ajudei- -o a morrer. Não quis mais nada, a não ser a presença da mulher – acho que as pessoas nestas alturas não querem nada, querem é morrer –, agradeceu-me e eu abreviei o seu sofrimento. Ajudei mais pessoas a viver do que a morrer 
O acto em si nunca se banaliza. Claro que o envolvimento emocional também pesa, mas nunca deixa de ser uma herança pesada. Não há dilema: ter uma pessoa de quem gosto perto de mim a sofrer? Isso é condená-la. Todas as pessoas que me pediram ajuda estavam em profundo sofrimento, sem esperança de vida que valesse a pena viver. Mantê-las vivas, isso sim seria uma maldade horrorosa. Admito: se tivesse tido coragem, teria começado a praticar eutanásia mais cedo. Vi tanto sofrimento inútil… 

Reclamo para mim aquilo que dei a estas pessoas: a possibilidade de escolher. Planeei a minha morte logo a seguir a ser operado. A falta de ar é uma coisa horrível. Sabe aquela sensação de que todo o ar do mundo não chega? De quem se vê embrulhado numa grande onda sem conseguir chegar à superfície? É a total impotência para fazer seja o que for. Disso sim tenho medo. 

Como tenho esta insuficiência respiratória, das duas, uma: ou fico comatoso e agradeço que me dêem morfina para acelerar o processo, e então tenho uma morte santa; ou será com a mesma substância com que pratiquei eutanásia. Tenho um colega, a quem já pedi, que me vai ajudar. 

As despedidas são difíceis, e esta, a definitiva, deve ser complicadíssima. A única coisa que gostava de fazer era dar um beijinho aos meus filhos. Não quero que estejam presentes, mas faço questão que saibam como o pai morreu. De resto fiz tudo, gozei a vida que me fartei, vou de barriguinha cheia. E acho que hoje ainda vale a pena viver. Apesar de ter ajudado estas quatro pessoas a morrer, sei que ajudei muito mais a viver. Muito mais." 

“Nota: todos os nomes usados são fictícios”



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