quinta-feira, 19 de outubro de 2017

"O Fogo que arde em Lisboa"

"Arde na capital uma fogueira que projeta focos de incêndio país fora. Cresce desde a tragédia de Pedrógão Grande e ganhou fulgor este fim de semana.
Os incendiários espalham teses. De que há uma máfia terrorista do fogo no país. De que o Governo deixa. De que a classe política ganha com isso. De que há interesses.
Quer-se sacrificar alguém. A Ministra? O Governo todo, se possível!
Só não se quer pensar.
O fogo que arde em Lisboa só arde em Lisboa porque só Lisboa é que não ardeu.
Aproveita-se da ignorância e da impotência. Do choque. Do horror.
O fogo que arde em Lisboa, nas redações dos principais jornais, revistas e televisões do país, propaga-se na voz de gente que já não sai de Lisboa. Que não conhece o país. Que não tem qualquer ligação ou empatia com o modo de vida rural, com as suas práticas. Mas que dirige os principais meios de comunicação do país.
E tem a ajuda dos idiotas úteis que se vieram embora das terras, do campo e hoje vivem nas capitais ou nas periferias, desprezando a vida que os seus pais e avós tiveram. Que lhes permitiu estudar, viajar, ver outros mundos e ter, hoje, uma vida com qualidade, mas em contexto urbano.
Por isso alinham nas manifestações silenciosas contra nada. Nas partilhas de vídeos virais. Por isso clamam que se faça algo, quando não querem fazer coisa nenhuma. Nem eles, nem os incendiários que eles respeitam, cujas palavras disseminam aos quatro ventos.
Os incendiários, claro, querem cabeças a rolar. São os mesmo que defenderam a entrada da Troika, as privatizações, a estabilidade do BES ou do BPN, o benefício das autoestradas, o fim do Estado Gordo, os cortes no número de funcionários públicos em escolas, hospitais, repartições de finanças ou segurança social, que viveram a expensas das PTs e hoje passeiam à conta das EDPs.
São os mesmos que escarnecem das lutas de ambientalistas e ativistas. Que se riem de quem tenta falar contra os esquemas das barragens inúteis que vão destruir os nossos rios e encarecer a fatura da eletricidade; que se riram quando houve oposição ao fecho de linhas de caminho de ferro no Tua, no Corgo, no Tâmega, por esse Alentejo fora; que se riem quando se fala em Proteção da Natureza; que acham bem que se tenha acabado com Guardas Florestais e Guarda Rios; que ignoram as lutas contra a exploração de gás natural e petróleo; que propagam os mitos da agricultura intensiva, de um Alqueva em cada esquina ou de um fábrica de pasta de papel em cada região.
São os mesmos que bloqueiam ou censuram os poucos jornalistas que se especializaram em questões de Ambiente. Que não lhes dão espaço, nem tempo para escrever. Que se riem das suas propostas e, quando os deixam trabalhar, lhes dizem que o ângulo tem de ser mais apelativo, falar de casos de sucesso, de empreendedorismo, de mudar de vida, de famílias vintage.
Por isso, ignoram os ciclos naturais, as dinâmicas agro-pastorícias e florestais. Não sabem que o fogo faz parte da vida do campo. Não sabem que o país que ainda não ardeu anda por estes dias a apanhar azeitona. E que desse ritual faz parte, muitas vezes, podar ramas e pernadas das oliveiras. E queimá-las. Ali mesmo, nos terrenos. Porque o pão já não se faz todas as semanas no forna a lenha. Porque já não há camas de animais para fazer com essas sobras. Porque muitos desses terrenos continuam a ser semi-cultivados por gente que já não mora nessas terras e lá vai apenas aos fins de semana. Ou por gente velha, abandonada ou simplesmente entregue ao seu dia-a-dia e ao que há para se fazer. E há que limpar os terrenos. Há que queimar.
Os incendiários que hoje projetam as suas farpas incandescentes pelos ecrãs não querem discutir o país.
Não querem saber se a gestão dos Parques Naturais vais ser desmantelada e entregue às Câmaras e aos mais paroquiais caciques; fazem por ignorar que todos os dias os gabinetes dos Ministérios da Agricultura e do Ambiente abrem exceções à integridade da Reserva Agrícola Nacional e da Reserva Ecológica Nacional, permitindo que se construa em todo o lado; não fiscalizam, nem investigam o trabalho da Agência Portuguesa do Ambiente ou das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional – onde mora o verdadeiro Poder do país, o que molda o território, que autoriza ou chumba todo e qualquer investimento e atividade económica fora dos núcleos urbanos, toda e qualquer exploração de recursos; não querem saber se o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas há anos que não tem vigilantes, meios ou orçamento para tratar das Áreas Protegidas; estão-se marimbando para as alterações climáticas, que não explicam, não querem explicar, nem entendem.
Os incendiários o que não querem é os seus Turismos Rurais queimados. A suas reservas de caça afetadas. Os seus caminhos para as aldeias e vilas pitorescas – de onde muitos, na verdade, são originários – cobertos de preto e cinza. Porque é desagradável.
Porque incomoda a narrativa daquelas reportagens bafientas de verão sobre as tradições do Interior: os queijinhos, os enchidinhos, o cabritinho, as senhoras de bigode, os velhos bêbedos barrigudos de samarra.
E, acima de tudo, porque obrigava a ir conhecer o país, as suas contradições, o seu analfabetismo e iliteracia, o seu atraso. Mas também as suas realizações, acima e apesar das falhas do Estado, que há muito não existe para quem vive longe do mar.
Já os idiotas úteis não querem pensar. Porque os obrigava a calarem-se antes de cuspir tudo e um par de botas nas redes sociais. E porque isso é pouco instagramável.
Obrigava a pensar se querem mesmo pagar com os seus impostos o Estado que têm exigido ao longo deste verão e outono. Se querem pagar um corpo nacional de bombeiros profissionais – o voluntariado é muito bonito, mas não chega; um Serviço Nacional de Proteção das Florestas e Rios; se aceitam financiar o Estado para que este pague a pessoas para viverem e cuidarem das nossas serras e montes, Interior fora, onde os da cidade não querem viver, nem fazer agricultura, nem cuidar das florestas, nem criar gado; se aceitam que mais Estado é igual a mais funcionários públicos; se aceitam que a propriedade intocável tem de acabar e estão dispostos a abdicar de “ter” ao abandono a sua terra, a sua casa, a courela perdida não se sabe onde, para que alguém – seja o Estado ou o vizinho – cuide dela; se aceitam que o Estado pague a reflorestação de milhares de hectares privados ardidos; se estão dispostos a perceber que este “mais Estado” custa o dinheiro que estamos a torrar numa dívida impagável. E que negar discutir a dívida e o seu pagamento é continuar em dívida. E a arder.
Acima de tudo, se estão dispostos a meter as mãos na empreitada que é construir este País. Que não poderá ser feito só pelos outros, pelos partidos, pelos políticos profissionais de sempre.
O fogo que arde em Lisboa é só fogo de vista. Quem dá para esta fogueira, não quer pensar, nem fazer. Quer fogo de artificio.
E de fogos, está o país farto. E queimado.

Texto por Pedro Santos
Foto de João Pacheco/Moveast @ moveast.me "


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

EM MEMÓRIA DE TODOS NÓS!

Gostava que o meu regresso a este cantinho, após ausência prolongada, fosse por outras razões, mas infelizmente não é :(

O inferno que se vive neste país já ultrapassou TUDO o que a minha capacidade de compreensão pode alcançar!

Não é a primeira vez que Portugal atinge secas extremas e semelhante a esta, dizem os registos, foi na década de 40 mas não há registos de uma calamidade desta dimensão! 

Quando as calamidades são provocadas pelas forças da natureza, nada podemos fazer e temos de resignarmos-nos a ela, mas quando estas são provocadas pela GANÂNCIA e MALDADE do ser humano aí o caso já muda de figura e não podemos ficar impávidos e serenos perante tamanha tragédia! Os GRANDES CULPADOS (que são muitos) têm de ser PUNIDOS SEVERAMENTE!

São, já mais de 90, as vidas que se perderam nos incêndios deste ano e o número tende a crescer! 
São, milhares e milhares de hectares de floresta ardida!
São, aos milhares, os animais que pereceram (domésticos e selvagens)! 
São, aos milhões, os prejuízos de famílias e empresas!

Para além destes, são ainda as grandes consequências de saúde pública que iremos ter no futuro: o dióxido e monóxido de carbono respirado por todos que estão expostos aos incêndios que trarão grandes sequelas a curto e sobretudo a longo prazo.

Os lençóis freáticos e as barragens, que nos abastecem de água a todos, que ficarão completamente contaminados logo que as primeiras chuvas comecem a cair e para completar, a falta de oxigénio, imprescindível à nossa saúde, que era produzido pelas florestas que deixaram de existir!

Os custos, de tudo isto, vai sair dos nossos bolsos e não vão ser nada amigáveis na hora de cobrar a factura! Seja da água, porque purificá-la, vai sair muito caro; seja da electricidade, porque repor todas as estruturas de energia eléctrica saí caro; seja a alimentação - porque os produtores não só já tiveram prejuízos com a seca extrema como também foram muitos os que perderam as produções pelos incêndios, já para não falar nos lacticínios, carne etc e tudo o que se importa a factura é paga por todos nós - sobretudo a factura da falta de saúde porque essa não há dinheiro que a pague!

Pelo nosso FUTURO e das gerações vindouras, NÃO PODEMOS PERMITIR que calamidades destas continuem a acontecer e temos EXIGIR MEDIDAS a começar pela punição severa dos cérebros TERRORISTAS que desencadearam esta tragédia e todos nós sabemos, que quem está por trás disto não são aqueles que vão para o terreno atear o fogo, esses apenas o fazem por meia dúzia de tostões para sustentar vícios!

BASTA de sacudirmos a água do capote porque isto diz respeito a todos nós e enquanto DEIXARMOS que os discursos políticos fiquem por isso mesmo, então a maior culpa destas tragédias passam a ser de TODOS NÓS!


Deixo as minhas maiores condolências a todos aqueles que perderam os seus ente-queridos nesta calamidade!

Imagem retirada do google